terça-feira, 11 de junho de 2013

O Belo e o Surreal

Um belo texto de Caio Fabio, interpretado por  Flávio Siqueira e editado e finalizado por Francisco Pacheco, vale a pena conferir.


Às vezes a vida se mostra tão bela, tão perfeita, tão redonda, tão suave e tão harmônica, que a gente pensa que o mundo é perfeito. Mesmo quando não é com a gente que tais belezas acontecem, mas se pelo menos vemos alguém ou alguns experimentando essa existência suave e tranquila  plena de amor e cheia de bons enredos e histórias, todas com final muito, muito feliz, então, também nos animamos a crer que a vida pode ser boa, embora a nossa não seja.
Caetano Veloso disse que de perto ninguém é normal. De perto, também, não existe vida tão bela aos sentidos dos outros, que, quando vista nos detalhes, não carregue seus mondrongos e suas assimetrias.
No entanto, e me parece que cada vez mais, a maioria esmagadora das vidas humanas é marcada pela marca do inominável.
É surpreendente como também, muitas vezes, a existência de alguns é, externamente, bem simétrica e aparentemente bem organizada e feliz. Todavia, uma olhada na alcova ou no quarto, ou mesmo no computador do indivíduo, mostra os labirintos de seus mundos ocultos e de suas compulsões cobertas pelo manto da discrição.
Certas vidas simplesmente nos colocam diante de situações para as quais a existência não nos ensinou como tratar, nem tampouco há leis que possam lhes ser aplicadas com justiça, e nem padrões que lhes possam assegurar um lugar entre os distúrbios mapeados pelos mestres do comportamento.
Se alguém me fala de livre arbítrio, e o associa à capacidade do homem de escolher, sinceramente, na maioria dos casos, eu não consigo ver nem liberdade e nem arbítrio.
Neste mundo o único livre arbítrio que se me apresenta como livre, é o arbítrio do descontrole. Sim, ele é livre porque é até maior que o indivíduo que o pratica.
O que o espírito que anda na luz deve fazer enquanto caminha nos cenários que o circundam nessa existência, é caminhar com pureza de coração.
Somente os puros de coração vêem a Deus, e, portanto, somente esses podem ver Deus nos cenários caóticos desta existência.
Sem pureza de coração Deus não é visto no mundo!
Para aquele que caminha com o coração sem certezas, mas apenas com pureza, mesmo os piores cenários e roteiros, podem se converter em lugares de criação do amor de Deus.
A pureza é a ausência de certeza que dá lugar à confiança que faz o coração pacificado.
A criação emerge do caos. Quando o caos é encontrado pelo amor de Deus, há luz.
O primeiro ato de criação física é a luz. Assim, o caos poderá ser pintado com todas as formas, mesmo as mais estranhas, posto que o belo não é belo. O belo é apenas assim percebido. O belo sim, é uma escolha do coração que anda em pureza.
O belo é sempre aquilo que se vê com o olhar de Deus.
Com tais olhos, todas as coisas são belas, até as tragédias, e as existências que fogem ao padrão ao qual o nosso entendimento está acostumado a encontrar.
Onde quer que alguém veja um ser humano extasiado com o belo, saiba, mesmo que tal pessoa não saiba, ela está vendo com o olhar de Deus.
Somente o ver com o olhar de Deus é o que nos anima a prosseguir. Somente o olhar de Deus nos capacita a chamar a existência de vida.
Somente assim toda existência pode ser por nós tratada como vida, mesmo que seus desenhos sejam surreais.
Caio Fábio



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