quarta-feira, 20 de junho de 2012

O que aprendi com Esaú




Por Gonzaga Soares

Gosto dos coadjuvantes da bíblia. Me identifico com eles, não sei ao certo o motivo. Talvez por não estarem sob os holofotes da trama, na qual figuram em plano secundário. Na historia dos gêmeos bíblicos, o foco narrativo é centrado em Jacó, restando a Esaú o papel de coadjuvante na trama de seu irmão. Todos conhecem a historia de Jacó, um relato bíblico cheio de intrigas, trapaças, traições e temor. Desde da primeira vez que li o texto bíblico, simpatizei com Esaú, que diante da traição da mãe e do irmão, sempre demostrou um caráter admirável. E como em um filme ou romance literário em que você torce pelo mocinho, que sofre com as maldades do vilão, eu torcia para que no final da história Esaú desse uma boa sova em Jacó. No entanto, o final da história é surpreendente e contraria todos os romance e filmes, em uma manifestação de pura graça. 

Quando Jacó resolve regressar do seu exílio de vinte anos imposto pelo pecado que cometera contra  seu irmão, este teme por sua vida e de sua família. Tantos anos passados seriam suficientes para acalmar o coração do irmão traído? Jacó havia prosperado, Deus o abençoara, mas nada aliviava o fardo pesado dos crimes que cometera contra o irmão. Jacó tinha muitas posses, mas no fundo sabia, que o que tinha não era seu, e a paz que tanto desejava, não possuía.

No caminho de volta à sua terra é alertado que o seu irmão vem ao seu encontro. Assustado, o usurpador entende que chegara a hora de finalmente confrontar a ira de Esaú. Temeroso e certo do destino que o aguardava, Jacó busca estratégias para acalmar a fúria de seu irmão enviando-lhe presentes na esperança de comprar o perdão de seu irmão, e os manda em grupos, colocando-se no fim da caravana, como uma última alternativa de fuga caso o suborno que oferecera ao seu irmão falhe, e possa salvar a suas esposas, filhos e a si mesmo.

É neste ponto que a historia dos gêmeos atinge seu clímax, e é neste ponto que a história contraria todas as expectativas do leitor, pois ao contrário dos romances literários, o irmão traído não busca vingança, sua mão não empunha o metal frio de uma espada, mas seus braços lançam-se ao pescoço de Jacó, abraçando-o, beijando e chorando. A graça que tanto o usurpador buscara, lançara-se sobre ele e finalmente o alcançara. Os crimes que cometera já não importavam mais, e inexplicavelmente não há ódio no coração de Esaú, mas apenas amor irrestrito de um irmão. E, como prova máxima de graça, Esaú rejeita o suborno do irmão — "Eu já tenho muito, meu irmão. Guarde para você o que é seu" (Gênesis 33:9) — para espanto do usurpador a graça não pode ser comprada.

Não me lembro de ter ouvido, nem ao menos uma vez, sobre o caráter e compaixão de Esaú. Sempre que ouço seu nome é de forma pejorativa ou em tom de acusação diante de suas falhas. Mas posso afirmar com certeza que com Esaú aprendi o grande caráter de um homem que, ao ser traído, soube aplacar a sua ira e honrar a figura do seu velho pai. Com ele descobri o valor do perdão e — pasmem! — de que ouro e gado não podem comprá-lo. Com Esaú aprendi que posso perder tudo, primogenitura, bênçãos, o carinho de uma mãe, e que ninguém pode roubar o amor que existe em mim, amor que só se pode explicar na graça irrestrita do Criador.

A história é de Jacó, mas a maior lição aprendi de Esaú, que, nas poucas vezes que aparece, rouba a cena do irmão



12 comentários:

Nadson Vasconcelos disse...

Seu texto ficou excelente... Parabéns... Você foi um dos caras que me ensinou a importância das histórias romanceadas; obrigado... Pode ter certeza que eu serei um dos primeiros a compra o seu livro, quando você publica-lo...

Graça e paz; um abraço.

Nadson Vasconcelos

Luiz Carlos disse...

Cara muito legal, nunca tinha visto ninguém falar assim Esaú,quando li seu texto, voltei para a bíblia para reler a historia de jaco, mas agora sob uma nova perspectiva a de Esaú. Muito legal mesmo.

Luiz Carlos

Helder Leite disse...

Muito Legal, Deus te Abençoe

Hugo Magal disse...

Desculpe cara, mas apenas uma leitura superficial levaria alguem a colocar Esau na posicao de bom carater e de pobre injusticado. Com isso eu nao justifico Jaco, mas nao e esse perfil que a historia revela de Esau. Sugiro a releitura dos textos de genesis e a leitura complementar de malaquias e hebreus.
Ah! Tem uma coisa que aprendi com Esau: que ninguem seja imoral ou profano como Esau que por uma unica refeicao trocou seu direito primogenitura.

Gonzaga Soares disse...

Ok, Hugo, esta é a sua visão sobre o texto, mas discordo de que minha leitura seja superficial, apenas interpreto o texto bíblico como ele é, sem fantasias ou partidarismos. No relato de gênesis sobre os gêmeos , não há nada que diga ou insinue que Esaú era mau caráter, creio que grande erro de Esaú, tenha sido a sua falta de fé, pois quando este estava faminto, Jacó aproveita-se da situação para lhe tomar a primogenitura, e este pensa; “ de que me valera a primogenitura se estarei morto. Gn 25, 32”.
Esaú , tinha defeitos com certeza, mas se comparado a Jacó, este era um santo. Não vou repetir as qualidades que admiro em Esaú, isto já fiz no texto, só quero enfatizar, que esta é a minha visão do texto, o que aprendi na historia de Jacó, foi com seu irmão, já de Jacó, sua contribuição limita-se as coisas que não devo fazer, seus inúmeros erros, apenas nos alertam –me para ter cuidado.
No entanto, esta não é uma visão partilhada por muitos, uma vez que uma boa parcela dos crentes costumam endeusar os personagens bíblicos, e tentam a toda hora justificar suas falhas, em contra partida inventam pecado até onde não tem para os excluídos, os fracos, os marginais da bíblia, um exemplo claro do que falo, é o que grande parte dos cristãos afirmam sobre o porque de Deus rejeitar a oferta de Caim, eles dirão: ele não deu das primícias, não ofertou com amor, etc, no entanto a bíblia nada diz, sobre o porque Deus agradou-se da oferta de Abel e rejeitou a de Caim, qualquer tentativa de responder isso é fantasia.
Ah só mais uma coisa, IMORALIDADE para mim, é ver meu irmão morrendo de fome e nega-lhe um prato de comida. Como pode ver é só uma questão de ponto vista.
Ps. Um abração, tom saudades do bons tempos do GEEC, e fica na paz!

Gonzaga Soares

Hugo Magal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hugo Magal disse...

Só pra constar...
E Jacó deu pão a Esaú e o guisado de lentilhas; e ele comeu, e bebeu, e levantou-se, e saiu. Assim DESPREZOU Esaú a sua primogenitura. Gênesis 25:34
E ninguém seja devasso, ou profano, como Esaú, que por uma refeição vendeu o seu direito de primogenitura.
Porque bem sabeis que, querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar de arrependimento, ainda que com lágrimas o buscou.
Hebreus 12:16-17
Pois bem cara, o que disse foi uma citação da própria Bíblia.
Sugestoes para os próximos posts: O que aprendi com Caim e com Saul, ambos, como Esaú, rejeitados por Deus.

Gonzaga Soares disse...

Meu caro Hugo, lembre-se, o motivo dele rejeitar a primogenitura foi sua pouca fé, e Jacó só deu o guisado depois de fechar o negocio, alias mais um ponto para Esaú, que honrou sua palavra, e não esqueça o foco da historia é Jacó, e não o seu irmão e a afirmação de gênesis 25:34
“...E Jacó deu pão a Esaú e o guisado de lentilhas; e ele comeu, e bebeu, e levantou-se, e saiu. Assim desprezou Esaú a sua primogenitura”,não oferece base alguma para afirma que Esaú fosse um mal caráter, quanto a Hebreus , tenho minhas ressalvas quanto ao mesmo, no entanto estou certo que o texto faz referencia a gênesis a Gênesis 27:38
“E disse Esaú a seu pai: Tens uma só bênção, meu pai? Abençoa-me também a mim, meu pai. E levantou Esaú a sua voz, e chorou. “ , quando este implora a Isac que o abençoe também.
Quando fiz a reflexão estava ciente destes textos, e eles em nada mudam ou tiram os valores de Esaú, e concorde você ou não com isto, o que aprendi neste relato bíblico foi com Esaú, e não esqueça do titulo do post, " O que aprendi com Esaú", esta no singular e é pessoal, e como já falei para você, não é uma visão partilhada por muitos, mas é a que Deus usou para me ensinar.
Quanto a sua sugestão vejo que é carregada de ironia, mas respeito seu modo de pensar, e sei que você compreendeu quando citei o caso de Caim, na bíblia como em toda a vida Deus é soberano e Senhor absoluto, ao menos para mim, e este não deve explicações a ninguém, se ele escolhe os seus preferidos, não serei eu a questiona-lo. Mas obrigado pela “ sugestão”, pensado bem Caim e Saul tem muito a nos ensinar, MESMO QUE SEJA “COMO NÃO DEVEMOS NOS COMPORTAR”. Um abraço e fica na paz.

Hugo Magal disse...

Pois é cara, eu fui sarcástico. Mas veja bem, o trecho de hebreus não cita "falta de fé" mas sim que Esaú foi imoral e profano, sem tirar nem por palavras. O texto é claro. Outra coisa, ele não honrou sua palavra, até porque não teve oportunidade, Jacó "pegou" a benção da primogenitura antes que ele pudesse cumprir o que disse (se bem que o trecho não dá a entender que ele tinha essa intenção). O que não me cai bem é o desequilíbrio, tanto de quem não vê pecados em Jacó quanto de quem quer transformar Esaú num santo, visto o que a escritura comenta a respeito dele.
Comentários de internet são carregados de "ruído", portanto peço que você os leia tendo em mente a maneira que sempre usei pra conversar com você pessoalmente.

Gonzaga Soares disse...

Quando falo que o pecado de Esaú foi falta é com base em gênesis, quando este afirma que de nada lhe valeria a primogenitura se estivesse morto ( traduzindo ele não teve fé )e como falei, e quanto a afirmação de Hebreus é a interpretação do autor. Quanto a Esaú ser santo, não afirmei isto em nenhuma parte do meu texto, alias o que mais admiro nele é sua humanidade, exaltei suas virtudes como "honrar o seu velho pai e perdoa a seu irmão", e claro aprendi muito com ele, e sempre que volto ao texto bíblico aprendo mais. Só não compreendo porque isto incomoda tanto, por que Esaú não poderia ter nenhuma virtude, por que soa tão profano a minha afirmação: " O QUE APRENDI COM ESAÚ", o que há de errado em aprender algo com Esaú, é estranho, somos bons demais, perfeitos demais, para aprender algo com rejeitado do Senhor? Valeu caro amigo, pelo debate, e sinceramente espero continuar aprendendo com Esaú, José, Saul, Tome, Barnabé, Hugo, Maria, Juliana e tantos outros que estão nesta estrada.

Jedson Carlos Lima disse...

Temos muito a aprender com Esaú, e com Jacó também. Ambos cheios de falhas, mas no fim crentes em um mesmo Deus que estende graça a ambos por saber que sem erros mesmo só Jesus, que lá na frente iria mostrar o verdadeiro sentido da vida. Que nos ensinaria o valor de sermos filhos de Deus e quão grande é o seu perdão.

josef vitoria disse...

O magal é um religioso e legalista...É um fariseu que gosta da roda dos fariseus..para discutir o legalismo sem Graca....Jaco é mesmo terrivel...nada fez para merecer a Graca de Deus...a nao ser ser usado como um arquetipo de todos nos...que cpmo ele somos salvos apenasvpela Graca e só...somente só...

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