quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A impraticável doutrina de Cristo!



"Não vos preocupeis com o amanhã, com o que comereis, nem com o que bebereis, nem como vos vestireis" — diz Cristo. Sem defender a própria vida, sem resistir ao mal com a violência, dando a própria vida pelo próximo e guardando a castidade absoluta, o homem e a humanidade não poderiam existir, pensam e dizem eles.

E têm absoluta razão, se consideram as indicações de perfeição dadas pela doutrina de Cristo como regras que cada um deve respeitar, assim como, na doutrina social, cada um deve cumprir as regras de pagamento dos impostos, de participação na justiça etc. O mal-entendido consiste exatamente nisto: que a doutrina de Cristo dirige os homens com um meio que não as doutrinas fundamentadas no conceito da vida inferior. As doutrinas sociais são dirigidas somente com regras e com leis, às quais é preciso submeter-se exatamente.

A doutrina de Cristo guia os homens mostrando-lhes a infinita perfeição do Pai celeste, perfeição a que cada homem pode aspirar livremente, independente do grau de imperfeição em que ele se encontre. O mal-entendido dos homens que julgam a doutrina cristã do ponto de vista social consiste em que, supondo que a perfeição indicada por Cristo possa ser totalmente alcançada, eles se perguntam (como se perguntam, supondo que as leis sociais sejam observadas): "O que acontecerá quando isto ocorrer?"

Esta suposição é falsa, porque a perfeição indicada aos cristãos é infinita e nunca poderá ser alcançada.Cristo apresenta sua doutrina, sabendo que a perfeição absoluta nunca será alcançada, mas que a tendência a esta perfeição absoluta e infinita aumentará continuamente a felicidade dos homens, e que, por conseqüência, esta felicidade poderá ser indefinidamente aumentada. Cristo ensina, não aos anjos, mas aos homens que se movem e vivem uma vida animal. A esta força animal do movimento, Cristo aplica, por assim dizer, uma nova força — a consciência da perfeição divina — e assim dirige o caminho da vida sobre a resultante destas duas forças.

Crer que a vida do homem seguirá a direção indicada por Cristo é como acreditar que um barqueiro, para atravessar um rio veloz, remando quase que diretamente contra a corrente, navegaria naquela direção. Cristo reconhece a existência dos dois lados do paralelogramo, das duas forças eternas, imortais, de que se compõe a vida do homem: a força da natureza animal e a força da consciência, isto é, que ele é filho de Deus. Não falando da força animal que, afirmando-se por si só, permanece sempre igual a si mesma e está fora do alcance do homem, Cristo só fala da força divina, chamando o homem a maior consciência desta força, a sua mais completa emancipação e a seu maior desenvolvimento.

Na emancipação e no aumento desta força consiste, segundo a doutrina de Cristo, a verdadeira vida do homem. De acordo com as doutrinas que a precederam, a verdadeira vida estava no cumprimento das regras, das leis;

enquanto, segundo a doutrina* de Cristo, esta consiste na aspiração à perfeição divina, dada como fim, e cujo princípio, todo homem tem consciência de trazer consigo, na assimilação mais completa da vontade humana com a vontade de Deus, assimilação para a qual o homem tende , e que seria o aniquilamento da vida que conhecemos.

A perfeição divina é a assíntota da vida humana; a humanidade sempre tende para ela; pode dela se aproximar, mas só pode alcançá-la no infinito. A doutrina de Cristo não parece excluir a possibilidade da vida, senão quando é considerada como regra aquilo que é apenas a indicação de um ideal. Só neste caso os preceitos de Cristo parecem inconciliáveis com as necessidades da vida, enquanto, ao contrário, só eles oferecem a possibilidade de uma vida justa.

Leon Tolstoi
em O Reino de Deus está em Vós

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