terça-feira, 27 de julho de 2010

Herança de uma Mãe!



O que aprendi com a dra. Pfau, o abade Pierre e os outros reforçou uma das primeiras lições de meus pais nas montanhas Kolli Malai da Índia. Minha mãe, especialmente, deixou-me um forte legado, o qual levei anos para apreciar plenamente.

Referi-me várias vezes à vida de minha mãe nas chamadas "Montanhas da Morte", onde nasci. Morei com meus pais duran¬te nove anos felizes antes de embarcar para a Inglaterra a fim de iniciar meus estudos. Ali fiquei com duas tias numa casa majesto¬sa num subúrbio de Londres, a propriedade em que minha mãe crescera. A família Harris era próspera, e a casa continha inúmeras lembranças de como fora a vida para Evelyn, minha mãe, em seus dias pré-missionários. A mobília era de mogno, com as prateleiras cheias de peças tradicionais valiosas.

Minhas tias contaram-me que minha mãe costumava vestir-se com certa originalidade e mostraram algumas de suas sedas, fitas e chapéus emplumados ainda guardados no armário. Ela es¬tudara no Conservatório de Artes em Londres, e vi as aquarelas e os quadros a óleo que pintara anos antes. Havia também retratos de minha mãe; minhas tias me contaram que muitos estudantes competiam pelo privilégio de pintar a linda Evelyn.

— Ela parece mais uma atriz do que uma missionária — alguém comentou na festa de despedida antes da viagem para a Índia.
Quando minha mãe voltou à Inglaterra, porém, depois que meu pai morreu de malária, era uma mulher alquebrada, abatida pela dor e pelo sofrimento. Aquela mulher curvada, perturbada, poderia ser minha mãe?, lembro-me de ter pensado na ocasião. Fiz um voto adolescente insensato, tão chocado estava com a mudança dela: se é isto que o amor fax, nunca amarei demais outra pessoa.

Sem aceitar qualquer conselho, minha mãe voltou para a Índia e ali sua alma foi restaurada. Ela derramou a vida no povo das montanhas, cuidando dos doentes, ensinando agricultura, fazendo preleções sobre vermes, criando órfãos, cavando poços, pregan¬do o evangelho. Enquanto eu ficava no solar da sua infância, ela vivia numa cabana portátil, que podia ser desmontada, transportada e novamente montada. Viajava constantemente de povoado em povoado. Nas viagens em que acampava na zona rural, habituou-se a dormir em um pequeno abrigo, um mosquiteiro, que não a protegia dos elementos (quando caíam tempestades à noite, ela se enrolava num impermeável e abria um guarda-chuva para cobrir a cabeça).

Minha mãe tinha 67 anos quando voltei pela primeira vez à Índia como cirurgião. Morávamos a uma distância de apenas 160 quilômetros um do outro, embora fossem necessárias 24 horas para chegar à sua casa no alto das montanhas. Seus anos de atividade naquelas serras haviam cobrado dividendos. Tinha a pele curtida, o corpo infestado pela malária e caminhava coxeando. Minha mãe quebrara um braço e várias vértebras ao cair de um cavalo. Eu esperava que em breve se aposentasse. Como estava enganado!

Aos 75 anos, ainda trabalhando nas Kolli, minha mãe caiu e a quebrou a bacia. Ela ficou a noite inteira no chão, sofrendo, até que um trabalhador a encontrasse na manhã seguinte. Quatro homens a carregaram numa padiola feita de cordas e madeira montanha abaixo e colocaram-na num jipe para a terrível viagem de 160 quilômetros em estradas péssimas. Eu estava fora do país quando o acidente ocorreu, e assim que voltei decidi viajar até as Kolli Malai com o propósito expresso de persuadir minha mãe a aposentar-se.
Eu sabia o que provocara o acidente. Como resultado da pressão sobre o nervo espinhal, causada pelas vértebras que haviam quebrado, ela perdera parte do controle sobre os músculos abaixo dos joelhos. Coxeando e com tendência a arrastar os pés, tropeçara no limiar de uma porta enquanto carregava uma vasilha com leite e uma lâmpada de querosene.
— Mãe, foi sorte alguém tê-la encontrado no dia seguinte à sua queda — comecei meu discurso ensaiado. — Podia ter ficado ali indefesa durante não sei quanto tempo. Não acha que está na hora de pensar em aposentar-se?

Ela ficou em silêncio e eu aproveitei para entrar com mais al¬guns argumentos.
— Seu senso de equilíbrio não é mais tão bom, e suas pernas não funcionam como devem. Não é seguro morar sozinha aqui em cima porque só há socorro médico a uma distância de um dia de jornada. Pense bem. Nestes últimos anos você teve fraturas nas vértebras e costelas, concussão cerebral e uma infecção grave na mão. Com certeza sabe que até algumas das melhores pessoas se aposentam antes de chegar aos oitenta. Por que não vem morar em Vellore comigo? Temos muito trabalho para você, e ficará mui¬to mais perto da ajuda médica. Vamos cuidar de você, mamãe.
Meus argumentos eram absolutamente convincentes — para mim pelo menos. Minha mãe, porém, não se comoveu.

— Paul — disse ela finalmente —, você conhece estas monta¬nhas; se eu for embora, quem vai ajudar o povo das vilas? Quem tratará seus ferimentos, arrancará seus dentes e lhes ensinará so¬bre Jesus? Quando alguém vier tomar o meu lugar, então e só então vou aposentar-me. De qualquer forma, para que conservar este velho corpo se ele não for usado onde Deus precisa dele?
Essa foi a sua resposta final.

A dor era uma companheira frequente de minha mãe, assim como o sacrifício. Digo isto com bondade e amor, mas em sua velhice minha mãe tinha bem pouca beleza física. As condições rudes em que vivia, combinadas com as quedas que a aleijaram e as batalhas com a febre tifóide, disenteria e malária, fizeram dela uma mulher idosa, magra e curvada. Anos de exposição ao vento e ao sol haviam endurecido a pele de seu rosto, transformando-a em couro e vincando-a com rugas profundas e extensas como eu jamais vira numa face humana. A Evelyn Harris das roupas chamativas e perfil clássico era uma vaga memória do passado. Minha mãe sabia disto tanto quanto qualquer um, pois durante os últimos vinte anos de sua vida recusou-se a ter um espelho em casa.

Todavia, com toda a objetividade que um filho pode reunir, posso dizer sinceramente que Evelyn Harris Brand foi uma mulher linda, até o fim. Uma de minhas lembranças visuais mais fortes dela ocorreu num povoado das montanhas, possivelmente a última vez que a vi em seu próprio ambiente. Ao aproximar-se, os aldeãos correram para carregar suas muletas e levá-la a um lugar de honra. Em minha memória, ela está sentada no muro baixo de pedras que rodeia o povoado, com pessoas se apertando de todos os lados à sua volta. Eles já tinham ouvido os cumprimentos dela por terem protegido suas fontes de água e pela horta que estava crescendo na periferia. Estão agora ouvindo o que ela tem a dizer sobre o amor de Deus por eles. Meneiam as cabeças em encorajamento, e perguntas profundas, inquisitivas são feitas pela multidão. Os olhos embaciados de minha mãe estão brilhando e, de pé ao seu lado, posso imaginar o que ela deve estar vendo com sua vista fraca: rostos atentos, cheios de confiança e afeto por alguém que aprenderam a amar.

Compreendi então que ninguém mais na terra merecia tanto amor e devoção daqueles camponeses. Estavam olhando para um velho rosto ossudo, enrugado, mas de alguma forma os tecidos encolhidos dela haviam se tornado transparentes, e ela era apenas espírito radiante. Para eles, e para mim, ela era linda. A Vovó Brand não precisava de um espelho feito de vidro e metal polido; podia ver seu próprio reflexo nas faces iluminadas à sua volta. Minha mãe morreu alguns anos mais tarde, com 95 anos. De acordo com as suas instruções, os aldeãos a sepultaram envolta num lençol simples de algodão para que seu corpo voltasse à terra e alimentasse a vida. Seu espírito também continua vivendo, numa igreja, numa clínica, em várias escolas e nas faces de milhares de aldeãos em cinco cordilheiras ao sul da Índia.

Um colaborador comentou certa vez que a Vovó Brand estava mais viva do que qualquer pessoa que já conhecera. Ao dar sua vida, ela a encontrou. Ela conhecia bem a dor, mas a dor não precisa destruir. Pode ser transformada — uma lição que minha mãe me ensinou e que nunca esqueci.


Dr. Paul Brand
Extraido de A Dádiva da Dor: Philip Yancey, Paul Brand; traduzido por Neyd Siqueira
Ed. Mundo cristão

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