Um texto com curiosidades linguísticas, e que nos faz refletir sobre coisas como respeito ao próximo, gula e até consumismo e sustentabilidade.
Adoro palavras intraduzíveis. Elas são especiais, trazem conceitos muitas vezes específicos e raros. Em português, “saudade” é a mais famosa. É intraduzível; afinal é diferente de nostalgia – esta, sim, presente em inúmeros idiomas –, porque a primeira se pode matar e a segunda tem um ar de eternidade. Os verbos que outras línguas usam para expressar o sentimento de saudades, como to miss em inglês ou extrañar em espanhol, passam longe da profundidade do vocábulo luso. E, assim, saudade é uma palavra ímpar.
Outra destas palavras é uma que aprendi recentemente ao ler Milagrário pessoal, de José Eduardo Agualusa. O livro foi minha melhor leitura de 2010 e me ensinou o termo amparinho. Proveniente do português crioulo do Cabo Verde, significa aquele momento ao final de uma tarde quente, quando a temperatura ameniza e as pessoas saem às varandas para respirar o frescor que se aproxima. Amparinho é uma palavra tão intraduzível, que tem de ser traduzida até ao próprio português.
O inglês possui termos como insight, que deixam qualquer tradutor louco. O alemão possui a deliciosa palavra doppelgänger para designar um sósia perfeito de alguém, um duplo, algo mais para a fantasia que para o cotidiano na Terra. E até o grego antigo comparece com koinonia, palavra muito usada por cristãos para exprimir uma comunhão mais profunda, entre irmãos.
Como morei na Suécia por um curto período de 13 meses, acabei me deparando com algumas palavras interessantes por lá, e algumas intraduzíveis. Minha predileta, desde o momento que a descobri é lagom. Trata-se de um adjetivo que significa algo como “perfeitamente suficiente” ou “o necessário, nem mais, nem menos”. Por exemplo, digamos que você esteja jantando na casa de um amigo e o anfitrião pergunta se você gostou da comida e se quer mais. Um sueco responderia que o que comeu foi lagom, ou seja, em quantidade perfeita, adequada.
Se olharmos para a origem da palavra, fica mais fácil a compreensão. De acordo com o senso comum, lagom é uma contração de laget om (“em torno do grupo”), uma frase usada pelos vikings para determinar a quantidade de bebida que deveria ser consumida de um chifre que fazia o papel de cálice enquanto era passado de mão em mão, de forma que todos, inclusive a última pessoa, bebesse absolutamente a mesma quantidade. Outra explicação etimológica, defendida pela Academia Sueca, afirma que lagom se origina da palavra lag (“lei”, em português), referindo-se, neste caso, à lei do senso comum. A tradução de lagomseria então algo como “em conformidade com as leis”. As duas explicações são interessantes e refletem o espírito da sociedade sueca de valorizar a igualdade e o respeito acima de tudo, mas prefiro ficar com a primeira explicação.
De qualquer maneira, lagom possui uma referência intrínseca à igualdade e, portanto, ao cuidado e respeito ao próximo. Lagom é a quantidade adequada que nós devemos consumir para que o próximo possa ter acesso a quantidade semelhante. Lagom é o quanto eu preciso, sem exageros, sem prejudicar ninguém e sem deixar alguém sem nada. É a versão sueca das palavras de João Batista em Lucas 3.11: “Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem; e quem tiver comida faça o mesmo.”
O vocábulo sueco traz também implícito a valorização da qualidade em detrimento da quantidade. Afinal, se vamos consumir ou usar “apenas” a quantidade adequada, que ela seja da melhor qualidade possível. Que diferença da latinidade, onde mais é sempre melhor! Eu mesmo, sem pensar, acabei de escrever “apenas a quantidade adequada”, e tive de voltar o cursor correndo para colocar as aspas. A cultura brasileira é quase sempre aquela da churrascaria rodízio, de se consumir o máximo possível. Ela tem sempre presente a mentalidade do “está tão bom que vou pegar mais”. E essa cultura traz o perigo de nos fazer esquecer do outro, de consumirmos em exagero, de possuirmos demais, além do necessário e em prejuízo do próximo, em claro desrespeito à essência de Lucas 3.11.
Escrevo este texto no início de 2011 e, de qualquer forma, o ano brasileiro só começa depois do carnaval. Então, ainda é tempo de fazer votos de que tenhamos um ano muito lagom, ou melhor, que tenhamos um ano lagom, pois “muito lagom” é uma contradição – e mostra o quanto esse excesso de latinidade pode nos causar. Serlagom é obedecer o disposto em Lucas 3.11, é respeitar o outro, é ser cristão na essência do cristianismo. Por um ano, eu vi como quase todos os suecos mantêm viva a essência cristã do respeito ao próximo – apesar de pouquíssimos irem à igreja. Um 2011 lagom a todos os leitores.
Fonte: Cristianismo Hoje / imagem de Ambro em Free Digital Photos
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