terça-feira, 5 de outubro de 2010

No final Deus é só o abraço


A morte não é fim. Não é estática. Ela é um vento. E ouso dizer que se move a nosso favor. Que nos salva.

Pulveriza nossas medidas e espalha nossas palavras. Sentir-se por ela envolvido é sugestão de silêncio e temor. Condenam-se ao ridículo os que ousam falar da vida na morte.

Com a morte, só ela sabe da vida.

Por isso descobri no ofício do pastor o lugar de sua mais baixa miséria e mais elevada virtude: a beira de um caixão. É ali que o oficiante experimenta sua redentora contradição: a missão de falar quando nada diz. Reunir as palavras quando são inconciliáveis. Ensinar quando nada se sabe. Falar quando até as palavras silenciam.

Mas, desconcertante, a morte que espalha nossas palavras junta-nos em abraços. Quanto menos na morte conseguimos dizer, mais apertado aos vivos precisamos abraçar. Menos esperança, mais amor.

Ali, nunca deixei de ouvir com tanto alívio qualquer palavra. Ali, nunca vi com igual intensidade tantos abraços. A morte que me cala une mais irmãos que qualquer sermão que já preguei.

A morte que, ao lançar longe toda e qualquer palavra, nos ensina que nada da vida sabemos, agora joga-nos aos braços do que chora para ensinar-nos o que é amor.

O evangelho diz que no princípio Deus era o verbo.

A morte completa: no fim Deus é só o abraço.

Ao Allison, que em vida nos amou com tanta poesia e carinho, agora, não mais vivo, junta-nos em tantos abraços.

Obrigado, amigo.
Fonte: Em prosa e verso no Blog do Elienai Jr

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