segunda-feira, 19 de abril de 2010

Lucas: O evangelho dos Excluídos!

Por: Pedro Fortunato


Foto:Cena do filme Justiça, de Maria Augusta Ramos

O evangelho de Lucas enfatiza pelo menos duas coisas mais do que os outros 3 evangelhos.

1 - a atuação do Espírito Santo
2 - o relacionamento de Jesus com os excluídos pela sociedade judaica (os perdidos)

Em Lucas, Jesus está sempre se relacionando com: publicanos, pecadores, enfermos, leprosos, mulheres, gentios, samaritanos, viúvas, pobres ou crianças. Todas essas classes de pessoas eram desprezadas pela sociedade judaica do 1º século e era simplesmente um absurdo que um Mestre judeu se preocupasse em estar na presença de algumas dessas pessoas.

Interessante é notar como o Espírito Santo age na vida de alguns desses grupos: criança, mulheres, viuvas, pobres, quebrantados, cativos, cegos, oprimidos.
(1:41;2:37-38;4:18-19 e 10:21)

Lucas é o evangelho da inclusão, da quebra de paradigmas, da valorização humana, do amor de Deus pelo perdido (15:20), do Deus que festeja quando um pecador decide mudar de vida (15:7)

É o evangelho da inclusão porque as figuras que ele mais usa para mostrar a quem pertence o reino de Deus são os pobres e as crianças. (6:20 e 18:16-17)

Jesus não está dizendo que o pobre por ser pobre, ou a criança por ser criança, MERECE o reino de Deus, ele não está aqui dizendo, como muitos afirmam, que a criança é pura e por isso o reino de Deus é dela, ou que o pobre por ser sofredor tem vaga garantida no reino. Para entendermos o que Jesus quis dizer precisamos entender a mentalidade do 1º público a quem ele se dirigiu, no caso, os judeus que o ouviram falar...

Para o judeu, não existia o nosso atual conceito de "infância" como a idade da fé simples, pureza e simplicidade, o judeu cria que para merecer o reino de Deus a pessoa precisava ter méritos, credenciais, créditos diante de Deus, e o que lhes conferia isso era a observancia da lei (isso na cabeça deles). Quando Jesus cita a criança, ele está confrontando essa mentalidade de mérito próprio, porque a criança não tinha mérito pela lei. Elas participavam de certos rituais da lei, porém a vida religiosa dos judeus as excluia em muitos aspectos. Eles viam as crianças, não como modelo de fé e pureza, mas como INÚTEIS!, Para um judeu a "infância" só era tolerada como algo necessário para se tornar adulto, quando realmente a pessoa passava a ter valor. Entendendo tudo isso podemos concluir que Jesus cita a criança apenas para demonstrar que não é pelos méritos próprios que alguém recebe o reino de Deus, pois a criança não os tem, mas o reino vem para todos!

E além disso, ao dizer que é necessário se tornar como uma criança para receber o reino (18:17), provavelmente Jesus está afirmando que qualquer um que se apegar a seus "méritos", éticos ou religiosos, nunca vai poder receber esse reino, é necessário ser INÚTIL COMO UMA CRIANÇA, SEM MÉRITO COMO UMA CRIANÇA, admitir que NÃO PODEMOS FAZER NADA para merecer o favor de Deus e confiar que mesmo assim ele POR SUA VONTADE E NÃO POR NOSSOS MÉRECIMENTO, resolveu nos dar o seu reino (12:32)

Nesse sentido o pobre também é uma ilustração usada por Jesus. Para os judeus o sinal visível do favor de Deus era o "bolso". Se alguém é rico é porque Deus o abençoou, se é pobre, é porque está sendo castigado por Deus (será que nós não estamos com esse pensamento nos nossos dias?)

Para aqueles judeus que achavam que os ricos eram ricos porque Deus os abençoava, ouvir que o reino de Deus era dos POBRES (6:20), foi um confronto direto na sua teologia. Jesus ainda diz: Ai de vós, os ricos! (6:24). Aqui, Jesus não quer dizer que é a posição econômica que faz MERECEDOR do reino! Ninguém o merece, nem o pobre, nem o rico, mas o reino é oferecido TAMBÉM ao pobre, e se o rico, a quem o reino também é oferecido, tiver nas suas riquezas a sua consolação, então ele não vai poder receber o reino. Nesse contraste de pobre e rico, Jesus apenas quer demonstrar isso: O REINO É PARA TODOS, PORÉM, AQUELE QUE FICA APEGADO AOS SEUS CONSOLOS TERRENOS, NÃO O PODE RECEBÊ-LO. Não é uma questão de mérito, nem de posição econômica.

A mulher também era desprezada na comunidade judaica. Eles as viam como uma propriedade, porém, Lucas enfatiza as mulheres, e como Jesus as valorizava.

Os doentes também eram vistos como castigados por Deus, mas Lucas demonstra como Jesus investia tempo os curando.

Os publicanos, que eram judeus que coletavam impostos dos seus conterrâneos e os entregava a Roma, como Roma não os pagava por isso, eles tinham que cobrar a mais para tirar seu saldo, eram ODIADOS pelos judeus, Mas Jesus era AMIGO DELES.

Os samaritanos eram extremamente discriminados, pois eram uma raça mestiça do antigo reino do norte de Israel que foi levado em cativeiro pela Síria e foi misturado com outros povos a quem a Síria dominava. Para um judeu, o só pisar numa vila de Samaria era tornar-se impuro, mas Jesus foi até os samaritanos.

Enfim, Lucas demonstra o Jesus alcançando os excluidos pela sociedade judaica. Aqueles a quem os mestres judeus consideravam como castigados, desprezados, ou desvalorizados por DEUS eram justamente eles, a quem Jesus investia seu tempo em alcançar.

Pois o filho do homem veio para BUSCAR e SALVAR o PERDIDO! Lc. 19:10

Por isso os fariseus e mestres da lei estavam em constante conflito com Jesus, porque ele mostrava amor a quem eles achavam que não tinham valor algum.

Mas, porque Lucas se preocupa em mostrar esse lado da história de Jesus mais do que qualquer um dos outros 4 evangelhos?

Ao que tudo indica, o escritor do evangelho de Lucas é o mesmo do livro de Atos dos apóstolos, sendo o mesmo Lucas, o médico amado, companheiro de Paulo, descrito em Cl. 4:14.

E há boas evidências de que ele escreveu esse evangelho tendo em mente os GENTIOS.

Gentio, era todo aquele que não era judeu.

Os judeus viam os gentios como se fossem inferiores, e criam que o reino de Deus viria para elevar Israel e esmagar os gentios.

Por isso, no início da igreja, quando Paulo começa e pregar aos gentios, causa tanta confusão nas igrejas, que começaram entre os judeus, até ao ponto de ser necessário um concílio em Jerusalém, para decidirem se os gentios que estavam se convertendo precisavam ou não guardar a lei dos judeus (At. 15)

Atos demonstra essa mentalidade dos judeus quando Pedro entra na casa de Cornélio, um gentio, e como eles ficam espantados pelo Espírito Santo descer sobre eles (At. 10 e 11)

Lucas escreveu para demonstrar aos gentios o quanto Jesus os amava, como o Espírito Santo também poderia agir na vida deles e como o reino de Deus também lhes pertencia, que eles não eram em nada inferiores aos judeus, e para demonstrar isso, ele relatou o relacionamento de Jesus com todos aqueles a quem os judeus desprezavam, os pobres, enfermos, mulheres, viuvas, samaritanos...

Aplicando aos nossos dias, Lucas me faz pensar sobre como eu vejo Deus e seu reino. Como eu vejo o agir do Espírito Santo.

A quem pertence o reino de Deus? Para quem Jesus veio? Quem pode ser usado pelo Espírito Santo?

Lucas mostra um Jesus que escolhe se relacionar com todos, desde os ricos e fariseus, aos pobres e publicanos, o Jesus que possui uma espiritualidade que não exclui as pessoas que pecam, mesmo quando confronta seus pecados.

Lucas começa seu livro demonstrando um contraste interessante. (cap. 1:6-38)

O anjo Gabriel é enviado ao "homem de Deus", o sacerdote Zacarias, dentro da "casa de Deus", o templo, na "cidade Santa", Jerusalém, e qual a reação desse "homem de Deus"? ele DUVIDA e fica mudo!

Depois o mesmo Anjo Gabriel é enviado a uma simples mulher, adolescente (as mulheres judias casavam com mais ou menos 12 anos de idade) que estava em sua casa, numa cidade desprezível, Nazaré, e qual a atitude dessa "mera mulher"? ELA crê e se submete! Eis aqui a escrava do Senhor!

Esse contraste confronta meus paradigmas religiosos!

Seria como se hoje Deus falasse com o pastor dentro da igreja e com uma menina de 12 anos em sua casa, e o pastor duvidasse e a menina acreditasse!

Em Lucas eu aprendo que é fútil o meu julgamento sobre questões espirituais! Quem tem intimidade com Deus? Quem é cheio do Espírito? Quem tem fé?

EU NÃO POSSO DEFINIR ISSO ME BASEANDO EM CARGOS OU STATUS RELIGIOSOS.

O pastor não tem mais fé por ser pastor, a adolescente não é menos consagrada a Deus por ser adolescente, o pastor não é cheio do Espírito por ser pastor, a menina não é vazia por ser jovem, porque o Espírito age em todos os que creêm e dão lugar a sua atuação, indepentende do cargo ou falta dele, que as pessoas possuem dentro da igreja e sociedade!

Vendo tudo isso, sou desafiado a ter essa espiritualidade que se submete a Deus independente de cargos e reconhecimento. Que valoriza as pessoas indenpentende de cargos e reconhecimentos na igreja e sociedade. Que se relaciona com todos, religiosos ou não, e entende que o reino é oferecido para Todos, independente de como eu os vejo, de como a sociedade os vê, e ainda indepentende de como a IGREJA, os vê...

Fico imaginando como nós hoje, como igreja, temos uma "espiritualidade" que exclui as pessoas. Lucas demonstra que as multidões de pecadores gostavam de estar com Cristo, mesmo ele os chamando muitas vezes de geração má e incrédula, porque as pessoas não gostam tanto de estar na igreja hoje?

O que nós temos feito que tem excluido as pessoas do reino ao invés de atrai-las?
Porque nós colocamos tantos impecilhos para as pessoas fazerem parte desse reino? a lista do não pode isso, não pode aquilo...

Em Lucas, um mestre da lei pergunta a Jesus quem era o próximo dele e Jesus responde com a conhecida parábola do bom samaritano (10:25-37), apenas para mostrá-lo que o samaritano era tbm seu próximo, e hoje, será que nós conseguimos ver "o samaritano" como nosso próximo? conseguimos ver os homossexuais, os drogados, as prostitutas, os bandidos como "nosso próximo"? Pois para um judeu, um samaritano era menos ainda que uma prostituta...

É algo a se pensar...

Deus os abençoe.
Pedro Fortunato é missionario da Jocum Maceió

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