quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A última palavra perfeita


Como escritor, eu jogo com as palavras o dia inteiro, brinco com elas, ouço os seus meios-tons, parto-as pelo meio e tento encaixar nelas os meus pensamentos. Descobri que as palavras têm uma tendência de se estragarem com o passar do tempo, como carne deteriorada.

Quando os tradutores da versão King James contemplaram a forma mais elevada de amor, escolheram a palavra "caridade" para expressá-la. Porém, nos dias de hoje ouvimos o protesto de desdém: "Não quero a sua caridade!".

Talvez eu continue rondando a palavra graça porque é uma grande palavra teológica que não foi estragada. Eu a chamo de "a última palavra perfeita" porque todos os usos dela em inglês que eu consigo encontrar retêm um pouco da glória original.

Como um vasto lençol aqüífero, a palavra sustenta nossa civilização orgulhosa, lembrando-nos que as coisas boas não vêm de nossos próprios esforços, e sim pela graça de Deus. Mesmo agora, apesar de nossa guinada secular, as raízes-mestras ainda vão estender-se para a graça. Veja como utilizamos a palavra.

Muitas pessoas "dão graças" antes das refeições, reconhecendo diariamente o pão como um presente de Deus. Somos gratos pela bondade de alguém, sentimo-nos gratificados com boas notícias, congratulados quando temos sucesso, graciosos hospedando amigos. Quando uma pessoa nos serve bem, deixamos uma gratificação. Em cada um desses usos ouço a exclamação infantil de prazer dos que não merecem.

Um compositor acrescenta appogiaturas às notas reais. Embora não sejam essenciais à melodia — são gratuitas — elas acrescentam floreios cuja ausência seria sentida. Quando tento pela primeira vez tocar uma sonata de Beethoven ou Schubert no piano, toco-a toda, algumas vezes, sem as appogiaturas. A sonata flui, mas que diferença faz quando sou capaz de acrescentar as notas graciosas que temperam a partitura como gostosas especiarias!

Na Inglaterra, alguns usos dão uma evidência explícita da fonte teológica da palavra. Os súditos britânicos dirigem-se à realeza utilizando a expressão "Sua Graça". Os estudantes de Oxford e de Cambridge podem "receber uma graça" que os isenta de certas exigências acadêmicas. O Parlamento declara um "ato de graça" para perdoar um criminoso.

Os editores de Nova York também sugerem um significado teológico com a sua política de agraciar. Se eu assino doze exemplares de uma revista, posso receber alguns exemplares extras mesmo depois que minha assinatura expirar. São "exemplares de graça", enviados para me incentivar a renovar a assinatura. Os cartões de crédito, as agências de aluguel de carros e as imobiliárias igualmente estendem aos clientes um "período de graça" não merecido.

Eu também aprendo a respeito de uma palavra com o seu antônimo. Os jornais dizem que o comunismo "caiu em desgraça", uma frase igualmente aplicada a Jimmy Swaggart, Richard Nixon e O. J. Simpson. Insultamos uma pessoa apontando a carência da graça: "Seu ingrato". Ou, pior ainda, dizemos: "Você é uma desgraça!". Uma pessoa realmente desprezível não tem "graça salvadora". Meu uso predileto da raiz graça aparece na melíflua expressão persona non grata: uma pessoa que ofende o governo com algum ato de traição é proclamada uma "pessoa sem graça".

Os muitos usos da palavra me convencem de que a graça é realmente surpreendente: é a nossa última palavra perfeita. Ela contém uma essência do evangelho como uma gota de água pode conter a imagem do sol. O mundo tem sede de graça em situações que nem reconhece; não nos causa admiração que o hino "Maravilhosa Graça" (Amazing Grace) continue sendo tão repetido duzentos anos depois de sua composição. Para uma sociedade que parece estar à deriva, sem amarras, não sei de lugar melhor para lançar uma âncora de fé.

Philip Yancey - " Maravilhosa Graça"

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