segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A Estrondosa Queda de Um Muro



Hoje o mundo comemora não só a queda do muro de Berlim, mas a queda do regime comunista, entretanto o que poucas pessoas sabem é que o inicio do movimento para a queda do regime comunista, começou longe da esfera politica e de ativistas políticos, o campo de batalha para o dia que mudaria a historia do mundo começo dentro das igrejas e na esfera espiritual. Philip Yancey nos conta como o papel decisivo da igreja de Cristo numa das maiores revoluções pacificas da história.

A razão pela qual os países que eram comunistas abriram tão rapidamente suas portas para os cristãos depois do colapso do marxismo remonta ao testemunho de cristãos que permaneceram fieis ao seu chamado. Eles também fazem parte de uma história não contada.

Na antiga Alemanha Oriental, um dos poucos países do Leste Europeu com maioria protestante, durante quarenta anos a igreja buscou caminhos para servir à "cidade de Deus" enquanto vivia numa "cidade do mundo", oficialmente ateia. Uma vez que muitas alamedas (tais como televisão e rádio) foram fechadas, desde cedo a igreja assumiu um compromisso de cuidar dos membros mais necessitados da sociedade, especialmente os portadores de deficiências profundas. E se reuniam regularmente para adoração e oração.

Apesar de Jesus ter falado de um reino que "está dentro de vós", ao longo da história a igreja tem enfrentado a constante tentação de fazer alianças com centros de poder externos. A igreja dos Estados Unidos enfrenta exatamente essa tentação hoje, enfatizando a política em lugar da espiritualidade. Mas, num país como a ex-Alemanha Oriental debaixo do comunismo, essa possibilidade não existia. Os cristãos de lá não tinham nenhuma "base de poder" como essa, nenhuma que não fosse o poder do amor e da oração.

Mas, contra todas as expectativas, quando o momento decisivo para a mudança finalmente chegou para o bloco do leste, a igreja abriu o caminho numa revolução pacífica. Os alemães-orientais olham retrospectivamente para o dia 9 de outubro de 1989 como die Wende, "o ponto da virada". O evento crucial teve lugar, bem apropriadamente, em Leipzig, um bastião da Reforma onde Lutero pregou no século xvi e Bach tocou órgão no século XVIII.

Durante 1989, quatro igrejas em Leipzig (incluindo a Thomaskirche de Bach) estavam organizando reuniões semanais de oração nas segundas-feiras, às 5h da tarde. As reuniões de oração tinham começado sete anos antes, em 1982, quando o pastor Christian Fuchrer convidou seus párocos a se ajuntar para orar pela paz. Os pastores regiam os velhos hinos luteranos, dirigiam-se a suas congregações com uma Bíblia numa mão e o jornal do dia noutra, e conduziam rodadas de oração. Desta forma tentavam dar significado e esperança aos assediados alemães-orientais. Inicialmente um punhado de cristãos, 12 no máximo, se reuniu.

No entanto, gradualmente as congregações nessas reuniões de oração começaram a aumentar, atraindo não apenas cristãos fiéis, mas também dissidentes políticos e cidadãos comuns. A igreja era o único lugar onde o Estado comunista permitia liberdade de reunião. Depois de cada reunião, os grupos se juntavam e andavam pelas ruas escuras da velha cidade, segurando velas e faixas — uma das mais benignas formas de protesto político. Virtualmente, todas as demonstrações de protesto em todo o país começaram dessa forma, com um culto.

Em algum momento, a imprensa do Ocidente se apercebeu da história. Alarmada, a hierarquia comunista debatia sobre como se livrar das marchas pacíficas. A polícia secreta circundou as igrejas, às vezes chutando ou agredindo os que marchavam. Mas as multidões em Leipzig continuaram crescendo: centenas, milhares e depois cinqüenta mil.

O pastor Wonneberger, da igreja São Nicolau, descobriu-se desempenhando o papel inesperado de líder de fato do movimento. Ele pregava a paz e dava conselhos práticos sobre técnicas de não-violência, mesmo quando a polícia fazia ligações com ameaças de morte e montava vigilância em volta da igreja.

Em 9 de outubro, praticamente todos esperavam que a pressão política alcançasse a massa crítica. Berlim oriental estava comemorando o 40 aniversário do Estado comunista e enxergava as marchas em Leipzig como uma provocação. A polícia e destacamentos do Exército se moveram em peso para Leipzig, e o líder alemão-oriental Erich Honecker lhes deu ordens para atirar nos participantes do protesto. O país se preparou para uma reedição da tragédia na Praça Paz Celestial. O bispo luterano de Leipzig preveniu sobre um massacre, os hospitais abriram espaço nos prontos-socorros, e igrejas e auditórios de concerto concordaram em abrir suas portas caso os participantes da marcha precisassem se refugiar rapidamente.

Quando chegou a hora da reunião de oração na igreja São Nicolau, dois mil membros do Partido Comunista se apressaram a entrar para ocupar todos os assentos. A igreja simplesmente abriu as galerias que quase nunca eram usadas, e mil manifestantes também se aglomeraram. O Christian Century informa que o culto em si foi um ponto de virada: membros do partido que foram à reunião com a intenção de atravancar as coisas, pela primeira vez, perceberam que a igreja na realidade estava trabalhando por uma mudança pacífica.

Ninguém sabe com certeza a razão pela qual os militares não abriram fogo naquela noite. Egon Krenz, que sucedeu a Honecker por pouco tempo, tomou para si os créditos de ter rescindido a ordem. Alguns teorizam que o próprio Mikhail Gorbachev advertiu Honecker por telefone. Outros acreditam que o Exército simplesmente se acovardou diante das imensas multidões. Mas todos dão crédito às vigílias de oração em Leipzig por incendiar o processo de importantíssima mudança. No fim, 70 mil pessoas marcharam pacificamente através do centro de Leipzig. Na segunda-feira seguinte, 120 mil pessoas marcharam. Uma semana depois, 500 mil apareceram — quase toda a população de Leipzig.

No início de novembro teve lugar a maior marcha de todas, quase um milhão de pessoas marchando pacificamente através de Berlim oriental. Erich Honecker pediu demissão, humilhado. A polícia se recusou a atirar nos manifestantes. A meia-noite do dia 9 de novembro aconteceu uma coisa que ninguém tinha sequer ousado pedir em oração: uma brecha se abriu no odiado Muro de Berlim. Os alemães-orientais passaram como uma torrente pelos pontos de vistoria, passaram pelos guardas que sempre tinham obedecido às ordens de "atirar para matar". Nem uma única vida se perdeu enquanto hordas de pessoas marchando com velas derrubavam um governo.

Como uma tempestade com ventos de ar puro expulsando a poluição, a revolução pacífica se espalhou ao redor do mundo. Somente em 1989, dez países, somando mais de meio bilhão de pessoas — Polônia, Alemanha Oriental, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia, Albânia, Iugoslávia, Mongólia, União Soviética —, passaram por revoluções sem violência.

Como escreveu Bud Bultman, produtor e roteirista da CNN; "Nós da imprensa olhávamos espantados enquanto os muros do totalitarismo vieram abaixo com estrondo. Mas na pressa de cobrir os eventos cataclísmicos, a história por trás da história foi negligenciada. Nós direcionamos as câmeras para as centenas de milhares de pessoas orando pela liberdade, velas votivas na mão, e ainda assim perdemos a dimensão transcendente, o caráter explicitamente espiritual e religioso da história. Olhamos diretamente para isso e não conseguimos enxergá-lo".

De fato, alguns enxergaram. Alemães-orientais falam sobre aqueles dias como um milagre. "As orações podem ou não mover montanhas, mas certamente mobilizaram a população de Leipzig", relatou o New Republic. "Ouvi-los cantando 'Castelo forte é o nosso Deus' é o suficiente para fazer você acreditar." Várias semanas depois do ponto de virada em 9 de outubro, uma enorme faixa apareceu pendurada numa das ruas de Leipzig: Wir danken Dir, Kirche (Nós te agradecemos, Igreja).


Philip Yancey

Extraído de Descobrindo Deus nos lugares mais inesperados (Ed. Mundo Cristão)

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