quinta-feira, 14 de maio de 2009

Morte aos comentaristas

Você gosta de ler bíblias com comentários? Hoje existem várias, né? Sem o intuito de condená-las, reproduzimos aqui um texto do Paulo Brabo (A bacia das almas) falando sobre o assunto.
 
 
Bible (2883)

O cerne da mensagem do Reino, conforme enunciado por Jesus, é tão escandalosamente revolucionário e exigente que nós cristãos tratamos de aparar suas arestas mais escandalosas (todas elas), de modo a que ele não pudesse causar estrago e constrangimento a ninguém – em especial a nós mesmos.

Como resultado desse eficaz trabalho de domesticação, todo o tipo de barbaridade foi e é efetuado pelos cristãos em nome de Deus – mas, como aprendi com o Serqueira, sem firma reconhecida. Desnecessário olhar para trás e contemplar as Cruzadas. Nos nossos dias aquele que reivindica para o si o título de país mais Verdadeiramente Cristão™ da Terra é também o mais beligerante e consumista – sendo que a proclamação do Reino exige de forma inequívoca e intransigente o baixar de armas e a simplicidade de vida.

Os fundamentalistas evangélicos norte-americanos, defensores últimos da integridade do evangelho, sustentam que é horrenda ofensa não crer na Bíblia literalmente. Eles de fato crêem literalmente, mas de forma cuidadosa e seletiva: isto é, quando lhes convém.

Os fundamentalistas e seus asseclas crêem que o Gênesis está falando em dias literais quando afirma que o mundo foi criado em sete dias; mas ensinam que Jesus não estava falando numa espada literal quando sentenciou: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão”. O nascimento virginal de Jesus deve ser entendido literalmente e seria blasfêmia sugerir o contrário; mas já Jesus não deve ser entendido literalmente quando nos convida a amar os inimigos, a emprestar sem esperar receber de volta, a oferecer a outra face, a dar liberalmente a quem pedir, a renunciar a toda pretensão de poder, a colocar o outro em primeiro lugar, a não ajuntar tesouros na terra, a renunciar a tudo para segui-lo, a nos fazermos frágeis e despretensiosos como criancinhas, a dar a vida pelos amigos.

Mais fácil é fazer-se de louco e ater-se, como fazemos invariavelmente, a lateralidades. Ninguém quer se dar ao luxo de ponderar que talvez o evangelho seja incompatível com o belicismo, a acumulação insana de bens, o egocentrismo institucional e o capeta-lismo (como dizia o velho profeta carioca Gentileza). O que Jesus disse é, na prática, irrelevante à nossa pretensão de sermos seguidores dele.

Estamos protegidos do Indomável pela nossa interpretação à prova de balas das suas palavras.

Naturalmente, estou chovendo no molhado quando falo sobre esse assunto – e olhe que volto sempre a ele. Se, falando da forma mais clara, o aclamado Søren Kierkegaard não conseguiu abrir os olhos da galera, não serei eu. Já no século retrasado, e por excelentes razões, Kierkegaard exigia a cabeça dos que fazem de intermediar o significado da Bíblia sua profissão.

MORTE AOS COMENTARISTAS

A enorme quantidade de intérpretes contemporâneos bíblicos tem prejudicado, mais do que auxiliado, nossa compreensão da Bíblia. Ao ler os comentaristas tornou-se necessário fazê-lo como quem assiste uma peça durante a qual a profusão de espectadores e de luzes impede, por assim dizer, que desfrutemos da peça em si – e somos premiados ao invés disso com pequenos incidentes. Para assistirmos à peça temos de aprender a ignorá-los, se possível, ou entrar por um caminho que não tenha sido obstruído.

O comentarista tornou-se, na verdade, o mais prejudicial dos intermediários. Se você deseja entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário. Pense em dois amantes. A amante escreve uma carta ao seu amado. O amado está por acaso interessada no que os outros acham da carta? Não irá lê-la sozinho? Em outras palavras, nunca lhe passaria pela cabeça lê-la com o auxílio de um comentário. Se a carta da amante estivesse escrita num idioma que ele não compreende – ora, ele por certo aprenderia a língua, mas com certeza não a leria com a intermediação de comentários. Esses de nada adiantam. O amor pela sua amada e sua prontidão em satisfazer os desejos dela tornam-no mais do que capaz de compreender a carta. É o mesmo com as Escrituras. Com a ajuda de Deus podemos entender a Bíblia muito bem. Todo comentário deprecia, e a pessoa que senta-se com dez comentários abertos e lê a Escritura… está provavelmente escrevendo o décimo-primeiro. Não está por certo lidando com as Escrituras.

SE VOCÊ DESEJA ENTENDER A BÍBLIA, CERTIFIQUE-SE DE LÊ-LA SEM UM COMENTÁRIO

Suponha agora que essa carta da amante possua o atributo único de que cada ser humano é o amado a quem ela se dirige. E agora? Deveríamos por acaso sentar e conferenciar um com o outro? Não, cada um de nós deveria ler essa carta apenas como indivíduo, como indivíduo singular que recebeu essa carta de Deus. Ao lê-la, estaremos preocupadas em primeiro lugar com nós mesmos e com nosso relacionamento com ele. Não concentraremos nossa atenção na carta em si, no fato de que essa passagem possa ser interpretada de uma forma e esta de outra – de forma alguma: o importante para nós será agir, e o mais cedo possível.

Não é então algo singular ser o amado, e não nos dá esse algo uma vantagem que nenhum comentarista possui? Pense a respeito. Não somos nós os melhores intérpretes das nossas próprias palavras? E em seguida o amante e, em relação a Deus, o verdadeiro crente? Não devemos esquecer que as Escrituras são meras placas rodoviárias: Cristo, o amado, é o caminho. Morte aos comentaristas!

A questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós cristãos somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. Meu Deus, dirá você, se eu fizer isso minha [vida] estará arruinada. Como vou progredir na vida?

Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.

TERRÍVEL COISA É ESTAR SOZINHO COM O NOVO TESTAMENTO

Abro o Novo Testamento e leio: “Se você quer ser perfeito, venda todos os seus bens e dê aos pobres, e venha me seguir”. Meu Deus, se fôssemos de fato fazer isso, todos os capitalistas, todos os funcionários públicos e empreendedores, toda a sociedade na verdade, seríamos reduzidos à condição de quase mendigos! Estaríamos em maus lençóis não fosse a erudição cristã! Louvado seja todo aquele que trabalha para consolidar a reputação da erudição cristã, que ajuda a refrear o Novo Testamento, esse livro perturbado que passaria por cima de nós uma, duas, três vezes se andasse à solta (quer dizer, se a erudição cristã não o refreasse).

O que precisamos realmente, portanto, é de uma reforma que coloque até mesmo a Bíblia de lado. Sim, isso teria hoje em dia a mesma validade que teve o rompimento de Lutero com o papa. A presente ênfase em “voltar à Bíblia” tem, infelizmente, criado religiosidade a partir de uma trapaça erudita e literalista—mera manobra de diversão. Tragicamente, esse tipo de conhecimento tem gotejado gradualmente sobre as massas, de modo que hoje em dia ninguém é mais capaz de simplesmente ler a Bíblia. Todo nosso saber bíblico tornou-se nada além de uma fortaleza de desculpas e escapes. Quando se trata de existência, de obediência, há sempre algo de que devemos cuidar antes. Vivemos sob a ilusão de que devemos primeiro ter a interpretação correta ou a crença em sua forma perfeita antes de podermos começar a viver – quer dizer, nunca chegamos a fazer o que a Palavra diz.

A igreja vem há muito precisando de um profeta em temor e tremor que tenha a coragem de proibir o povo de ler a Bíblia. Sou tentado, portanto, a fazer a seguinte proposta. Coletemos todas as nossas Bíblias e juntemo-las em algum lugar aberto ou no alto de uma montanha e então, enquanto todos ajoelhamos, alguém fale com Deus da seguinte maneira:

“Leve esse livro de volta. Nós, cristãos, tais como somos, não somos aptos a nos envolver com tal coisa; ela apenas nos torna orgulhosos e infelizes. Não estamos prontos para ela.”

Em outras palavras, sugiro que nós, como os aldeões cujo rebanho de porcos arrojou-se na água e afogou-se, imploremos a Cristo que “retire-se de nós” (Mateus 8:34). Isso pelo menos seria um discurso honesto – algo muito diferente da erudição nauseante e hipócrita tão prevalente hoje em dia.

Em vão a Bíblia comanda com autoridade. Em vão ela admoesta e implora. Não ouvimos – isto é, ouvimos a sua voz apenas pela intermediação/interferência da erudição cristã, dos especialistas que tiveram treinamento adequado. Da mesma forma que um estrangeiro exige os seus direitos numa língua estranha e ousa apaixonadamente dizer palavras ousadas ao enfrentar autoridades do Estado – mas veja, o intérprete que deve traduzi-las para as autoridades não ousa fazê-lo, substituindo-as por alguma outra coisa – assim soa a Bíblia através da erudição cristã.

“LEVE ESSE LIVRO DE VOLTA.”

Afirmamos que a erudição cristã existe especificamente para nos ajudar a entender o Novo Testamento, a fim de que melhor possamos ouvir a sua voz. Nenhum lunático, nenhum prisioneiro de estado foi jamais confinado dessa forma. No que diz respeito a eles, ninguém nega que estão trancafiados, mas as precauções contra o Novo Testamento são ainda maiores. Nós o trancafiamos, mas argumentamos que estamos fazendo justamente o contrário, que estamos zelosamente engajados em ajudar a que ele ganhe clareza e controle. Por outro lado, naturalmente, nenhum lunático ou prisioneiro de estado poderia ser mais perigoso do que o Novo Testamento caso se permitisse que ele andasse à solta.

É verdade que nós, protestantes, empreendemos grandes esforços para que cada pessoa possua sua própria Bíblia – até mesmo em seu idioma nativo. Ah, mas como são grandes os esforços para imprimir sobre todos a noção de que ela só pode ser compreendida através da erudição cristã! Essa é nossa situação atual.

O que tentei demonstrar aqui pode ser declarado sem dificuldade:

Tenho desejado fazer as pessoas darem-se conta e admitirem que acho o Novo Testamento muito fácil de entender, mas tenho encontrado até agora a maior dificuldade para agir de forma literal em conformidade com o que ele diz tão claramente. Talvez eu pudesse ter tomado outra direção; poderia ter inventado uma nova espécie de erudição, dando à luz ainda outro comentário, mas estou muito mais satisfeito com o que fiz – uma confissão sobre mim mesmo.

Søren Kierkegard, Provocations

Foto de Matt Gruber em CreativeMYK

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