segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O que você está lendo?

por Gerson Borges
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Já notou como a pergunta "O que você está lendo?" aparece nas entrevistas? Tudo bem, é meio lugar-comum, meio clichê, mas é muito tentadora a curiosidade. Sobretudo se você, como eu, considera a escrita o outro lado da leitura. Escreve bem quem lê bem. Escritores não são mágicos, são pesquisadores. Um bom texto, perdoem-me os puristas, os platônicos defensores da tal inspiração arrebatadora, não é criação, é re-criação. Ponto.

"O que você está lendo? ", perguntam os jornalistas. "O que você está lendo? ", pergunta o pessoal que compra meus CDs, ao perceberem meu vínculo antigo e afetivo com a literatura. "O que você está lendo?", perguntam ovelhas, gente da congregação local que pastoreio. Vamos lá, então. Sugestões. Se forem úteis, bom proveito!

1. Estou lendo a Bíblia. Mas com outros olhos e ouvidos. Lendo Jesus. (Deveríamos ler os Evangelhos umas quatro mil vezes, para começar a entrar na mente de Cristo, para sacar sua Revolução sem precedentes: espiritual-social-política-cósmica, para imitá-lo, para seguí-lo ao invés de distorcê-lo com nosso malucos fundamentalismos e nossos neuróticos legalismos). Lendo oradamente, mais do que exegeticamente, os Salmos. Faz muita, para não dizer, toda diferença. Lendo Paulo. Esse é demais. Viu longe. Provou coisas arrebatadoras. Mas é muito mal compreendido.

2. Estou relendo alguns clássicos. Como disse Ítalo Calvino, "um classico é um texto que sempre terá algo a dizer a cada geração". Os livros do tipo "o Cânone ocidental" e "Como e por que ler", de Haroldo Bloom, "ajudam a encontrá-los, se é que eles já não o encontraram primeiro... Estou relendo, porque muitos já li (ou me leram na infância e adolescência: Homero, Mark Twain, Dumas, Machado de Assis. Gente profunda, esses caras! João Ubaldo Ribeiro disse que diariamente lê umas linhas de Shakespeare. É a sua cafeína inspirativa.

3. Estou descobrindo coisas novas. Acabei de comprar um guia da Superinteressante simplesmente bárbaro: "122 livros para entender o mundo" (Abril). Livros fundamentais sobre sociedade, cultura, religião, ciência. Não sei quem foi que disse que "quem lê só a Bíblia não lê a Bíblia". Sim, por que a Bíblia é sobre o caso de amor de Deus e o homem - relacionamentos. "Juntar Escritura com Escritura, escritura com fato ", recomenda Élben Cesar (Ultimato ), eis o trabalho do Pregador, do Exegeta. Paulo assinaria embaixo. Calvino, Lutero... profundos, extravagantes, bíblicos!

(Além dessa lista exaustiva e abrangente, concordo com Ricardo Gondim: "Precisamos ler os teólogos contempoâneos, sobretudo os latino-americanos: são muito inteligentes". Boff, Gutierrez, Comblin... os polêmicos Bultmann, Barth, Moltmann, ou ainda, os católicos Hans Kung, Karl Rahnner, von Balthazar... será que um dia, antes de ficar chato e gagá, os terei lido?)

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Ah, ainda no quesito Teologia (que às vezes é bem esquisito, se posso - devido ao que produz a nossa literatura dita "cristã" - usar tal trocadilho besta...) : estou lendo tudo que me cai às mãos de N.T. Wright, bispo anglicano, um dos maiores especialistas no NT e em Paulo de todos os tempos. Fantástico mesmo. Brian McLaren (dele, li " A mensagem secreta de Jesus ", depois "A igreja do outro lado " e me assustei com o vigor intelectual do conteúdo e a semelhança com nossos teólogos latino-americanos - ótimo!), Rob Bell (sobretudo "Velvet Elvis", "Sex God " e "Jesus want to save christians"). Bell é um poeta, um artista disfarçado de pastor. Não que eu concorde com tudo dessa tríade, mas concordo com sua originalidade e força de pensamento e amor a Deus e ao se Reino!

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4. Estou lendo mais poesia. Adélia Prado, a prosa-poética (se posso reduzir algo tão estupendo) de Guimarães Rosa, lendo e orando os Salmos e os Profetas em voz alta: experimente para ver. É outra coisa! É maravilhamento puro!

5. Estou relendo meus mentores espirituais. Agora não tem jeito - terei de usar uma lista:

- C.S.Lewis: "Surpreendido pela alegria " (Mundo Cristão). De vez em sempre, volto a essa preciosidade. E me surprendo com sua beleza e verdade.
- Richard Foster: todos, sobretudo "A celebração da disciplina" (Vida ). Para quem quer rever a vida espiritual, a devocionalidade.
- Eugene Peterson: todos, sobretudo a trilogia pastoral. Pastor de pastores, poeta, sábio.
- Henri Nouwen: todos, sobretudo os diários e livros sobre oração (grande maioria).
- Thomas Merton: "A montanha dos sete patamares". Um choque na minha antiga religião irrelevante.
- James Houston: os livros sobre oração e história da espiritualidade cristã.
- Bonhoeffer: todos. Tudo o que um mártir tem a dizer deve ser ouvido.
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Agora, isso não quer dizer que esteja lendo tudo isso e todos ao mesmo tempo. Claro que não. Seria pretensiosa mentira. Esses são amigos que visito aqui e ali, dependendo dos ânimos do meu coração. Algumas vezes uns livros me arrebatam, roubam o sono, como foi o caso recente de "Kind of Blue" (Ashlei Kahn, Barracuda), que narra apaixonada e hipnoticamente a fascinante história do maior álbum de jazz de todos os tempos, obra-prima do gênio Miles Davis) e "A cabana" (Sextante) , o romance que me foi fortuitamente apresentado por amigos dos EUA (The Shack), simplesmente a maior surpresa literário-teológica dos últimos tempos. Recomendo enfaticamente. Li os dois quase sem parar. Li não, engoli, devorando as páginas. Mais dois títulos da minha cabeceira, aguardando um noite insone para serem saboreados: "Qual a tua obra?", do filósofo da PUC-SP, Mário Sérgio Cortella. Coisa linda. Para quem, como eu, sabe que vocação é algo bem diferente de emprego e "Estabelecer limites", do monge beneditino e psicólogo alemão Anselm Grun (Vozes), para quem, como eu, sabe que "não há prioridades, mas prioridade" (frase que o amigo Osmar Ludovico me apresentou, citando Hans Burki).

Ah, meu amigo! Muitos livros, pouco tempo. "Tolle et lege", foi o que ouviu Agostinho do próprio Espírito Santo sobre a Bíblia (confira nas suas "Confissões") . Ou seja, pegue e leia. Alguém disse que daqui a cinco, dez anos, seremos as mesmíssimas pessoas de hoje, a não ser pelos amigos que fizermos e pelos livros que lermos. "O que você está lendo?"

Gerson Borges é um leitor profissional e passional: lê para trabalhar (pregar, ensinar, dirigir espiritualmente, aconselhar, compor, administrar) e lê para ser lido e por prazer (os poetas, os romancistas, os profetas, os ensaíastas, os exegetas, os artistas da palavra. Sua esposa fica preocupada com a despesa de livros na fatura do cartão de crêdito e com as olheiras, fruto de leituras recentes, mas já não reclama... Sorri!

Fonte: http://www.cristianismocriativo.com.br/

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