terça-feira, 30 de dezembro de 2008

William P. Young fala de seu primeiro romance, A cabana

Autor do maior fenômeno editorial do momento já vendeu mais de 5,4 milhões de exemplares nos eua e canadá

Fenômenos editoriais de autores desconhecidos costumam vir acompanhados de histórias de bastidor curiosas. Mas o de William P. Young, autor de A cabana – 100 mil exemplares vendidos no Brasil desde seu lançamento, em agosto, e 5,4 milhões na América do Norte, em pouco mais de um ano – beira o fantástico. Típico norte-americano comum (nasceu no Canadá e vive nos EUA), é um homem casado, pai de seis filhos. De vez em quando, para dar de presente à prole, escrevia letras de canções e contos. Um dia, sua mulher pediu-lhe para escrever algo de maior fôlego, que mostrasse aos filhos sua visão de mundo.

Começou, em 2005, a saga de A cabana. Com três empregos, Young, morador de subúrbio, pegava diariamente um trem para o trabalho. Eram 40 minutos na ida e mais 40 na volta. Ali, começou a resenhar algumas conversas. O processo seguiu de maneira bastante precária, até mesmo em sacolas de compras.

Com medo de que aquelas conversas desaparecessem, colocou-as no computador. Dali surgiria a narrativa do livro, que tem muito a ver com a própria história de vida de William P. Young. Finda a obra, mandou editar 15 cópias, que deu para os filhos, parentes e amigos no Natal de 2005. A história terminaria ali, não fosse o impacto causado pelo livro às pessoas próximas a ele.

A cabana – que até o fim desse ano terá sido traduzido para 35 idiomas – conta a história de Mackenzie A. Phillips, homem que, a exemplo de Young, tem uma grande família. Com passado complicado (filho de alcoólatra, abandona a família na adolescência depois de levar uma surra homérica do pai, vingando-se dele da pior maneira possível), conseguiu se estabilizar graças ao casamento.
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Um dia, vai com os filhos mais novos acampar. Lá, a mais nova, Missy, desaparece de forma trágica. Muitos acreditam se tratar de um crime praticado por um serial killer que mata meninas com menos de 10 anos. A vida de Mack pára e ele briga com o mundo (aí incluindo Deus, que sempre teve presença muito forte em sua família). Até que quatro anos mais tarde ele recebe um bilhete pedindo que vá até a cabana onde Missy havia desaparecido. Ao chegar lá, sofre uma reviravolta, pois se depara com Deus, Jesus e o Espírito Santo.

Tal como a vida de seu protagonista, A cabana se tornou um livro transformador para muitos que o leram, como ditam depoimentos em inúmeros sites. Ao lidar com religião, o livro também foi alvo de controvérsias. Há quem o acuse de distorcer a figura de Deus e banalizar as escrituras. Seja como for, as polêmicas têm servido para levantar ainda mais a bola do livro. Tanto que William P. Young prepara uma obra autobiográfica na qual vai contar sua trajetória que culmina em A cabana (que, afirma, está sendo negociado com um grande estúdio de Hollywood). Esta semana no Brasil (a primeira tradução oficial foi para o português) para divulgar o livro, ele conversou com o Estado de Minas. Confira a seguir trechos da entrevista.

O que chama a atenção em A cabana é como um livro, de um autor desconhecido e de uma editora idem, se transformou rapidamente num fenômeno editorial. Como foi o caminho até a publicação?
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Mandei A cabana para 26 editoras. Todas recusaram. Então, dois amigos (Wayne Jacobsen e Brad Cummings) resolveram lançar o livro. Criaram a (editora) Windblown Media para publicar meu livro. Um tinha algumas economias; o outro, Visa e Mastercard. Colocamos dinheiro e fizemos, numa gráfica de Los Angeles, 11 mil cópias. Em maio de 2007 os livros chegaram à garagem de Brad. Então o colocamos num website e conseguimos vender mais de um milhão de cópias de dentro de uma garagem e não gastando mais do que US$ 300 em marketing. Vi que a história iria virar quando recebemos um telefonema da Austrália. Um homem perguntou: “Aí é o lugar onde posso conseguir cópias d’A cabana?” Brad respondeu: “É aqui mesmo”. Eram três da manhã. Aí o homem respondeu que havia lido o livro, desatou a chorar e desligou. Ligou novamente meia hora depois, disse que havia conseguido se controlar, mas desatou a chorar de novo. E foi assim durante as 12 horas seguintes, por meio de seis telefonemas. O homem era na verdade um senhor com seus 80 e tantos anos que tinha sofrido um impacto tão grande com o livro que queria cópias para enviá-lo para várias pessoas. Criamos um e-mail para ele e também uma maneira de o senhor nos enviar o dinheiro da Austrália. Mandamos pouco mais de 100 livros. A questão é a seguinte: esperávamos vender as 11 mil primeiras cópias em dois anos. Mas a primeira edição foi vendida em quatro meses; a segunda, de 22 mil, em 60 dias; e a terceira, de 33 mil, em um mês. Tudo sem propaganda.

O livro é ficção, mas parece trazer muito de sua própria vida, não?
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A cabana é ficção mas é verdadeiro. É verdadeiro, mas não é real. Há muitas coisas da minha vida e da minha família. Já acampei algumas vezes naquele camping, passeei pelas estradas do livro. A respeito da dor (que ele chama de Grande Tristeza), aquilo foi tirado da minha própria história de vida.
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Ao lidar com temas como violência, religião, o livro levantou alguma polêmica. Como você lida com isso?
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Sabia desde o começo, por meio da experiência com a minha própria família, que A cabana causaria muito impacto, que ali havia algo especial. E acho que controvérsia é uma coisa positiva. Essas discussões têm que existir. Acho que a maneira como uma pessoa reage depois de ler A cabana revela bastante sobre como aquela pessoa é. A verdade é que quem tem mais raiva dele, que escreve na internet contra, não leu o livro. Mas isso é de cada um. O que importa é que de uma hora para outra Deus foi parar no meio das conversas.
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E quanto ao fato de o livro ter o poder de mudar as pessoas?

É verdade, sei disso por causa dos meus parentes. Parte disto ocorre porque muitos de nós temos uma relação com a religião que nunca esteve próxima de algo verdadeiro. O relacionamento com Deus, até então, era somente performance e culpa. O livro, de alguma forma, serviu como um convite para um relacionamento de verdade com Deus. Isto, com certeza, teve um impacto sobre essas pessoas. E para mim, o que ocorreu comigo foi uma bênção de Deus. Não sou um escritor incrível; considero-me um escritor por acidente.

Diante deste poder transformador, A cabana pode ser considerado um livro de auto-ajuda, não?

Não. Curioso, porque foi somente no Brasil que tentaram colocar meu livro no gênero auto-ajuda. Os livros de auto-ajuda são sobre você mudando sua própria vida. Tudo gira em torno de você, que passos tem que tomar para conseguir isso ou aquilo. Isto é auto-ajuda. Já A cabana é um livro sobre seres humanos que não têm ajuda, que se encontram imóveis por alguma razão. Aí, ao encontrar Deus, são ajudados. Então, podemos chamá-lo de um livro de ajuda divina, não de auto-ajuda.

Como você é o autor, seria então como um deus?
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Não me sinto como tal. O que fiz foi escrever um livro para dar de presente aos meus filhos. É como se Deus tivesse falado comigo: “Você o criou para as suas crianças e eu o darei para as minhas”.


Mariana Peixoto - EM Cultura

Fonte: www.new.divirta-se.uai.com.br

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