quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Chega de pensamento positivo

Isso mesmo que você leu no título! Pare com isso porque não é bom, concordas? Caso contrário, leia essa matéria da Época, onde resultados de pesquisa científica parecem contrariar as práticas de algumas “religiões” e teologia(s) de prosperidade(s) que vemos por aí.
 
 
 
por Marcos Coronato
 
Fashion Portrait [Mayer George Vladimirovich - Shutterstock.com]
 
 
Esta é a melhor reportagem de toda esta revista [a edição onde ela foi publicada]. Não, ainda não é o suficiente: esta é a melhor reportagem que você já leu em sua vida.
 
Eu não sei que efeito essas frases tiveram sobre você, mas para mim o resultado de dizê-las em voz alta foi tornar a tarefa de escrever esta reportagem mais difícil, e não mais fácil. Deve ser isso que três pesquisadores canadenses queriam dizer com um estudo publicado recentemente no jornal Psychological Science.
 
Eles resolveram testar a extraordinária tese de que o pensamento positivo faz as pessoas se sentirem melhor – e elas acabam por produzir mais, conquistar seus objetivos, viver melhor. Não há dúvida de que o pensamento positivo deu certo para o pastor americano Norman Vincent Peale. Em 1952, ele escreveu O poder do pensamento positivo e praticamente inaugurou um veio bilionário da psicologia e do mercado de autoajuda.
 
E agora a pesquisa canadense, feita com jovens universitários, comprovou que, sim, tecer elogios a si próprio dá resultado. Infelizmente, não é o resultado esperado. As palavras doces (“eu sou uma pessoa adorável”) ditas em voz alta até beneficiaram, modestamente, quem já apresentava autoestima elevada. Mas pioraram bastante a autoimagem de quem mais precisava de uma forcinha. Quem tinha autoestima reduzida – medida por um questionário-padrão desenvolvido nos anos 60 – saiu pior ainda da experiência. “Não é que o pensamento positivo baixe a autoestima em geral, mas ele pode prejudicar alguns indivíduos – de cara, aqueles que já têm baixa autoestima”, disse a ÉPOCA uma das autoras do estudo, Elaine Perunovic, ph.D. em psicologia e professora na Universidade de New Brunswick.
 
Uma das explicações dos autores é que, quando ouvimos afirmações radicalmente opostas àquelas em que acreditamos, nós não apenas nos mostramos céticos[1], como tendemos a aderir com ainda mais força nossa posição original. Um socialista moderado, ao ouvir um amigo tecer loas[2] ao liberalismo, tende a se sentir mais socialista. Um corintiano bissexto, rodeado por palmeirenses numa roda de bar, tende a demonstrar uma paixão inaudita por seu time. E, na opinião dos pesquisadores, uma pessoa que não se considera lá essas coisas, ao ouvir de si própria que é genial, ou linda, ou adorável, tende a achar-se mais desprezível que antes.
 
“A baixa autoestima é um problema crescente hoje”, diz a psicóloga Cecília Vilhena, professora da PUC de São Paulo. “Mas esse estudo evidencia a inexistência de soluções mágicas e as limitações da autoajuda.” Os especialistas do pensamento positivo, como era de esperar, discordam. “Se eu falo que estou feliz, mas minha voz mostra desânimo, os fatores não verbais não conbinam. Há uma incongruência aí”, diz o psicólogo Alexandre Bortoletto, especialista em neurolinguística, uma técnica que promete “reprogramar” o cérebro do indivíduo (e que usa, como uma de suas bases, o pensamento positivo). “Só pensar não resolve. Não é como disseminou por aí O segredo, que é só pensar e o dinheiro cai do espaço”, afirma Bortoletto, criticando outra linhagem de defensores do autoelogio.
 
 
 
[1] Que duvida de tudo; descrente.
[2] Discurso laudatório; elogio, apologia.
 
 
 
Veja também:
O segredo do pensamento positivo [Matéria interessante da revista Superinteressante]
O aspecto positivo da negatividade (palavra de Jacques Ellul na Bacia das Almas) [pra sua curiosidade]

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